A 340 km de
Brasília fica uma comunidade quilombola onde só se chega de carro se for época
de seca. Ali, um grupo conhecido como kalunga, que vive naquela área do
interior de Goiás há mais de 250 anos, mantém uma estufa com chão seco, repleta
de mudas mortas e plantas murchas.
O abandono
da estrutura é saldo de uma disputa que opõe essa comunidade isolada e Alex
Atala, principal chef do país. O pivô é o Projeto Baunilha do Cerrado,
conduzido pelo Instituto Atá, presidido por Atala, com os kalunga. Entre
dezembro de 2016 e o fim do ano passado, a Fundação Banco do Brasil desembolsou
R$ 382 mil para membros daquele povo criarem a estufa para as mudas de
baunilha.
Os moradores
de Vão das Almas culpam o Instituto Atá pelo projeto não ter dado o retorno
financeiro esperado. Eles se queixam ainda de a organização de Atala ter
registrado as marcas Baunilha do Cerrado e Projeto Baunilha do Cerrado junto ao
Instituto Nacional de Propriedade Industrial, o Inpi.
"O
pessoal pensava que ia ganhar dinheiro. Que antes de dar a fruta eles iam ficar
recebendo todo mês", diz Jocilene dos Santos Rosa, 26, moradora do local.
Nos termos do projeto, a intenção era melhorar a qualidade de vida e gerar
renda para a população pela produção da baunilha nativa.
Moradores
acreditavam que a renda viria na forma de empregos. Na comunidade há uma oferta
escassa, e a população se sustenta com a venda de outros tipos de produtos ou
com trabalhos nas vizinhas Cavalcante e Alto Paraíso.
Isso levou
os kalunga a abandonarem a estufa. Hoje, só uma família cuida das orquídeas,
mas sofre para manter as plantas, pois tem de pagar sozinha a conta de luz.
Segundo o
agricultor Rosalino Fernando, 51, representantes do instituto prometeram arcar
com a despesa. "Mas nunca pagaram, e nunca voltaram aqui", diz. A
família vive com R$ 170 ao mês, vindos do Bolsa Família, e com o que consegue
vender em produtos como farinha de mandioca.
Fernando diz
que tenta há dois meses entrar em contato com o Atá para que eles retornem, mas
não tem sucesso.
O instituto
responde dizendo que a família dele se voluntariou para cuidar da estufa,
construída no terreno onde mora, e não informou sobre dificuldades com os
encargos.
O Atá também
informa que o projeto está em andamento.
"Se
fosse para dar um prazo curto, seria de oito a dez anos", diz Alex Atala.
"Para a segunda fase, precisamos das plantas saudáveis. E ainda estamos
aprendendo a fazer as mudas. A próxima etapa não começou porque é preciso
dinheiro, e a Fundação Banco do Brasil não se interessou em continuar. Mas isso
não quer dizer que o Atá vá parar."
Porta-voz da
comunidade, a Associação dos Quilombos Kalunga, a AQK, faz, ainda, uma série de
reclamações nas tratativas com o instituto.
Uma delas é
o fato de o projeto ter se desenvolvido sem a efetiva participação da
associação. Outra é de o instituto ter registrado as marcas da baunilha. Os
registros foram feitos na categoria serviço e não implicam na exploração
comercial nem na propriedade das espécies, diz o Inpi.
Atala afirma
que fez a requisição para proteger a pesquisa. Ele registrou, numa escritura
pública, que vai transferir os direitos de registro a interessados seguindo
critérios de "autenticidade cultural relacionada ao uso ou por critérios
de territorialidade".
Além disso,
o chef diz também que o presidente da AQK, Vilmar Souza, retirou a entidade do
projeto numa reunião de junho de 2018 e que, desde então, não houve contato com
seus representantes.
Outra
questão levantada pela associação é a venda de produtos tradicionais da
comunidade sob o nome "linha ecossocial kalunga", uma das
contrapartidas. Segundo a AQK, os kalunga não participaram da criação da
identidade visual e são pagos muito pouco.
Por sua vez,
o Atá informa que a definição de preços teve como base valores já praticados
pelos kalunga e diz ter pago, em alguns casos, 65% a mais que o valor dado por
eles.
O quilo de
arroz de pilão foi vendido por kalungas a R$ 10 no quilombo, em Goiás, e era
encontrado por R$ 15 (a porção de 300 gramas) no Mercado de Pinheiros, em São
Paulo. A Central do Cerrado, onde a venda era feita, foi encarregada dos custos
de rotulagem, logística, beneficiamento e comercialização.
Atala diz
que pode ter havido falha na comunicação entre a comunidade e o Atá. "Não
estou afirmando que é tudo maravilhoso. Pode existir polêmica? Sim. Mas não
má-fé."
A baunilha
vem de favas obtidas de orquídeas tradicionalmente cultivadas em lugares como
Madagascar. Ela é tão valiosa pela dificuldade e o tempo da produção –uma
orquídea demora até cinco anos para frutificar e, depois, passa por longo
processo de maturação e secagem.
No Brasil,
existem variedades nativas em regiões como o cerrado e a Amazônia, cada vez
mais procuradas e obtidas, em geral, por extrativismo.
"Cientificamente
a gente não conhece quase nada sobre essas espécies", diz Julcéia Camillo,
engenheira agrônoma que coordenou uma série de livros sobre espécies nativas do
Brasil com potencial econômico, publicados pelo Ministério do Meio Ambiente.
Apesar de o
ingrediente ser nativo do cerrado, o cultivo da baunilha para a gastronomia não
é uma tradição dos kalunga, que dizem que a fava tinha mais valor medicinal.
"A gente não sabia que era valorizada", diz Fernando. "Então,
quando tinha que plantar mandioca, a gente colocava fogo no mato e acabava até
queimando os pés das baunilhas."
Fonte:
FolhaPress

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