quinta-feira, 2 de junho de 2016

Ciranda da Arte busca resgatar arte Kalunga




“Temos uma descendência e nós não podemos esquecer o que somos. Eu não quero que a nossa tradição acabe, porque eu sou Kalunga, com muito orgulho”. A afirmação é da quilombola Aparecida Aquino, dançarina da Sussa e moradora do quilombo em Vão das Almas, na Chapada dos Veadeiros.

A dança da Sussa tem origem africana e é considerada sagrada pelo povo Kalunga. É realizada preferencialmente por mulheres que, vestindo saias de chita rodadas, fazem movimentos giratórios equilibrando, às vezes, garrafas de cachaça sobre a cabeça.

Além dos giros, os passos também são marcados nos pés, cujas batidas acompanham os sons executados pelos instrumentos, que incluem pandeiros, viola, caixa (espécie de tambor), tambor onça (semelhante a uma cuíca com timbre mais grave) e vozes. A Sussa desempenha uma função socializadora junto à comunidade, sendo realizada em diversos momentos que vão da recreação às cerimônias religiosas.

Intercâmbio cultural

Imersos nesta cultura durante quatro dias, promovendo um intercâmbio de experiências, arte-educadores do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, da Secretaria da Educação, Cultura e Esporte deram início a um processo de estudos sobre a cultura quilombola no Estado de Goiás, investigando e identificando, inicialmente, os elementos artísticos presentes naquele universo cultural, apreendendo seus sentidos e significados, para gerar, posteriormente, conteúdos que possam referendar o currículo do Ensino das Artes no âmbito da educação estadual.

Material pedagógico

O material produzido ao longo dessa pesquisa visa dar suporte ao pleno exercício da Lei 11.645/2008, que inclui no currículo oficial da educação a obrigatoriedade da temática História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Como resultado do projeto, será formatada uma série de vídeo-aulas a serem disponibilizadas na revista eletrônica do Ciranda da Arte, a Webzine. A plataforma multimídia é aberta a todos os usuários da internet.

A expectativa

Ao falar sobre a ação, Luz Marina Alcântara, diretora do Ciranda da Arte, faz referência ao intercâmbio cultural vivenciado e destaca a importância da atividade para a área educacional. “Uma palavra que retrata a experiência de nossa equipe ao participar de uma ação cidadã promovida na comunidade Kalunga é: expectativa. Primeiramente, pela oportunidade de vivenciarmos aquela cultura, percebendo a grande riqueza de material que envolve os saberes ali praticados. Segundo, pela oportunidade de aprendermos, com os mestres de uma grande tradição, conhecimentos jamais ensinados na cultura acadêmica, estabelecendo, assim, uma relação harmoniosa, de caráter institucional, para a produção de material didático-pedagógico que venha fortalecer as diversas culturas das comunidades quilombolas”.

Pesquisa e parcerias

Esse primeiro contato foi importante para estreitar laços e consolidar parcerias em projetos futuros voltados ao resgate, à documentação e à promoção do patrimônio artístico e cultural Kalunga. Luz Marina enfatiza que a ideia central da iniciativa é produzir, em colaboração com a comunidade, material educativo, em formato digital, sobre a cultura local e disponibilizar esses conteúdos para as escolas assim como para os usuários da internet de forma geral. “A experiência ali vivenciada, que intercruza uma proposta curricular de arte praticada na rede estadual de educação, culminará na produção de projetos pedagógicos que viabilizarão o fortalecimento da diversidade cultural e formação de identidades apregoados nas Orientações Curriculares da área de arte em toda a rede”.

O trabalho junto a arte-educadores Kalunga será um dos principais eixos de atuação do projeto. A visita de campo propiciou alguns encontros e parcerias para iniciativas futuras de ação continuada nas comunidades quilombolas. Um dos destaques foi o contato com o músico Celiomar Vidal, que trabalha com ensino de música para crianças e jovens, promovendo o resgate dos ritmos tradicionais locais. Junto a outros artistas e educadores da região ele acaba de aprovar um ponto de cultura Kalunga, por meio do projeto Brasil dos Buritis.

“Ainda há brasileiros que estão dispostos a lutar pelo aprendizado, a lutar pelo fortalecimento de nossa cultura. Porque de forma alguma a gente quer que a nossa cultura morra. E de forma alguma nós querermos ser vistos como miseráveis, ou como dependentes de um governo tal. A música realmente é uma linguagem universal. Você entra com a música em qualquer lugar. Quando eu comecei a estudar música, meu pai falava: aprenda música que você vai ter um ingresso para o mundo. E é verdade, porque hoje você viaja o mundo inteiro, entra em qualquer lugar, desde de que respeite. E o músico geralmente respeita, porque você aprende a ser sensível, aprende os limites. Por isso que eu escolhi a música para a educação”, comenta o artista quilombola.

Os trabalhos do Ciranda aconteceram durante a última edição do programa Ação Cidadã, iniciativa do governo estadual voltada à ampliação do acesso da população a direitos sociais básicos. O evento foi realizado junto ao povo Kalunga do território quilombola Engenho 2, que fica nas imediações do município de Cavalcante, cidade do norte goiano. Na ocasião, os arte-educadores do Ciranda levaram à comunidade apresentações musicais e oficinas de contação de histórias e apreciaram ritmos, danças e narrativas tradicionais, tendo também assistido a um espetáculo teatral protagonizado pelos jovens do quilombo.

Os Kalunga

O povo Kalunga é formado por três comunidades de remanescentes quilombolas: o Povoado do Engenho, o Vão do Moleque e o Vão das Almas, povoações autossuficientes, cuja população descende de negros escravizados, fugidos e libertos das minas de ouro do Brasil central. Habitam regiões remotas da Chapada dos Veadeiros, situada no Norte goiano, entre os municípios de Cavalcante, Teresina e Monte Alegre de Goiás. Seu território, maior área de quilombo do Brasil, contém sítio histórico reconhecido pelo Unesco, desde 1991, como área de preservação do patrimônio cultural Kalunga. A cultura Kalunga, rica em manifestações artísticas como música, dança e história oral, é fortemente marcada pelas referências de matriz africana e pelo sincretismo religioso com os cultos católicos.

Com mais de 200 mil hectares, o território que abriga a nação Kalunga é reconhecido como a maior área remanescente de quilombo do País e, ao longo dele, vive, dispersa numa série de pequenos povoados, uma população de cerca de 9 mil habitantes. Com uma bela história de resistência ao triste passado da escravidão brasileira, os moradores do quilombo, construído pelos antepassados que fugiam da exploração nos garimpos de ouro do Brasil central, lutam, ainda hoje, para manter vivas as suas tradições culturais e assegurar a preservação de seus territórios, assim como das riquezas naturais do Cerrado, de que são guardiões.

“Muitas pessoas não dão valor a nossa cultura. Mas aí eu pergunto: se não fosse a cultura do negro, do indígena, que cultura o Brasil teria? A nossa cultura é muito rica, é muito forte. Kalunga é uma plantinha que tem as folhinhas bem pequenininhas e que vive em todos os lugares. Até nos piores lugares que é o lajedo. E ela resiste a essa seca toda, o ano todo, e ela não morre. Então, por que Kalunga? Porque os Kalunga são pessoas resistentes. De resistência física muito boa. Pessoas que sobreviveram. Seus antepassados sobreviveram há séculos de escravidão. E nós o povo Kalunga resistimos também a toda esse sofrimento, toda essa batalha, toda essa luta. Kalunga aqui no Brasil significa essa plantinha. Ela não murcha, ela não seca, ela fica sempre bem verdinha.”  Relato da historiadora e educadora quilombola, Eleuza Pereira, do quilombo de Teresina de Goiás.




Fonte: Governo de Goiás

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