“Temos uma
descendência e nós não podemos esquecer o que somos. Eu não quero que a nossa
tradição acabe, porque eu sou Kalunga, com muito orgulho”. A afirmação é da
quilombola Aparecida Aquino, dançarina da Sussa e moradora do quilombo em Vão
das Almas, na Chapada dos Veadeiros.
A dança da
Sussa tem origem africana e é considerada sagrada pelo povo Kalunga. É
realizada preferencialmente por mulheres que, vestindo saias de chita rodadas,
fazem movimentos giratórios equilibrando, às vezes, garrafas de cachaça sobre a
cabeça.
Além dos
giros, os passos também são marcados nos pés, cujas batidas acompanham os sons
executados pelos instrumentos, que incluem pandeiros, viola, caixa (espécie de
tambor), tambor onça (semelhante a uma cuíca com timbre mais grave) e vozes. A
Sussa desempenha uma função socializadora junto à comunidade, sendo realizada
em diversos momentos que vão da recreação às cerimônias religiosas.
Intercâmbio cultural
Imersos
nesta cultura durante quatro dias, promovendo um intercâmbio de experiências,
arte-educadores do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, da Secretaria
da Educação, Cultura e Esporte deram início a um processo de estudos sobre a
cultura quilombola no Estado de Goiás, investigando e identificando,
inicialmente, os elementos artísticos presentes naquele universo cultural,
apreendendo seus sentidos e significados, para gerar, posteriormente, conteúdos
que possam referendar o currículo do Ensino das Artes no âmbito da educação
estadual.
Material pedagógico
O material
produzido ao longo dessa pesquisa visa dar suporte ao pleno exercício da Lei
11.645/2008, que inclui no currículo oficial da educação a obrigatoriedade da
temática História e Cultura Afro-Brasileira e Indígena. Como resultado do
projeto, será formatada uma série de vídeo-aulas a serem disponibilizadas na
revista eletrônica do Ciranda da Arte, a Webzine. A plataforma multimídia é
aberta a todos os usuários da internet.
A expectativa
Ao falar
sobre a ação, Luz Marina Alcântara, diretora do Ciranda da Arte, faz referência
ao intercâmbio cultural vivenciado e destaca a importância da atividade para a
área educacional. “Uma palavra que retrata a experiência de nossa equipe ao
participar de uma ação cidadã promovida na comunidade Kalunga é: expectativa.
Primeiramente, pela oportunidade de vivenciarmos aquela cultura, percebendo a
grande riqueza de material que envolve os saberes ali praticados. Segundo, pela
oportunidade de aprendermos, com os mestres de uma grande tradição,
conhecimentos jamais ensinados na cultura acadêmica, estabelecendo, assim, uma
relação harmoniosa, de caráter institucional, para a produção de material
didático-pedagógico que venha fortalecer as diversas culturas das comunidades
quilombolas”.
Pesquisa e parcerias
Esse
primeiro contato foi importante para estreitar laços e consolidar parcerias em
projetos futuros voltados ao resgate, à documentação e à promoção do patrimônio
artístico e cultural Kalunga. Luz Marina enfatiza que a ideia central da
iniciativa é produzir, em colaboração com a comunidade, material educativo, em
formato digital, sobre a cultura local e disponibilizar esses conteúdos para as
escolas assim como para os usuários da internet de forma geral. “A experiência
ali vivenciada, que intercruza uma proposta curricular de arte praticada na
rede estadual de educação, culminará na produção de projetos pedagógicos que
viabilizarão o fortalecimento da diversidade cultural e formação de identidades
apregoados nas Orientações Curriculares da área de arte em toda a rede”.
O trabalho
junto a arte-educadores Kalunga será um dos principais eixos de atuação do
projeto. A visita de campo propiciou alguns encontros e parcerias para
iniciativas futuras de ação continuada nas comunidades quilombolas. Um dos
destaques foi o contato com o músico Celiomar Vidal, que trabalha com ensino de
música para crianças e jovens, promovendo o resgate dos ritmos tradicionais
locais. Junto a outros artistas e educadores da região ele acaba de aprovar um
ponto de cultura Kalunga, por meio do projeto Brasil dos Buritis.
“Ainda há
brasileiros que estão dispostos a lutar pelo aprendizado, a lutar pelo
fortalecimento de nossa cultura. Porque de forma alguma a gente quer que a
nossa cultura morra. E de forma alguma nós querermos ser vistos como
miseráveis, ou como dependentes de um governo tal. A música realmente é uma
linguagem universal. Você entra com a música em qualquer lugar. Quando eu
comecei a estudar música, meu pai falava: aprenda música que você vai ter um
ingresso para o mundo. E é verdade, porque hoje você viaja o mundo inteiro,
entra em qualquer lugar, desde de que respeite. E o músico geralmente respeita,
porque você aprende a ser sensível, aprende os limites. Por isso que eu escolhi
a música para a educação”, comenta o artista quilombola.
Os trabalhos
do Ciranda aconteceram durante a última edição do programa Ação Cidadã,
iniciativa do governo estadual voltada à ampliação do acesso da população a
direitos sociais básicos. O evento foi realizado junto ao povo Kalunga do
território quilombola Engenho 2, que fica nas imediações do município de
Cavalcante, cidade do norte goiano. Na ocasião, os arte-educadores do Ciranda
levaram à comunidade apresentações musicais e oficinas de contação de histórias
e apreciaram ritmos, danças e narrativas tradicionais, tendo também assistido a
um espetáculo teatral protagonizado pelos jovens do quilombo.
Os Kalunga
O povo
Kalunga é formado por três comunidades de remanescentes quilombolas: o Povoado
do Engenho, o Vão do Moleque e o Vão das Almas, povoações autossuficientes,
cuja população descende de negros escravizados, fugidos e libertos das minas de
ouro do Brasil central. Habitam regiões remotas da Chapada dos Veadeiros,
situada no Norte goiano, entre os municípios de Cavalcante, Teresina e Monte
Alegre de Goiás. Seu território, maior área de quilombo do Brasil, contém sítio
histórico reconhecido pelo Unesco, desde 1991, como área de preservação do
patrimônio cultural Kalunga. A cultura Kalunga, rica em manifestações
artísticas como música, dança e história oral, é fortemente marcada pelas
referências de matriz africana e pelo sincretismo religioso com os cultos
católicos.
Com mais de
200 mil hectares, o território que abriga a nação Kalunga é reconhecido como a
maior área remanescente de quilombo do País e, ao longo dele, vive, dispersa
numa série de pequenos povoados, uma população de cerca de 9 mil habitantes.
Com uma bela história de resistência ao triste passado da escravidão
brasileira, os moradores do quilombo, construído pelos antepassados que fugiam
da exploração nos garimpos de ouro do Brasil central, lutam, ainda hoje, para
manter vivas as suas tradições culturais e assegurar a preservação de seus
territórios, assim como das riquezas naturais do Cerrado, de que são guardiões.
“Muitas
pessoas não dão valor a nossa cultura. Mas aí eu pergunto: se não fosse a
cultura do negro, do indígena, que cultura o Brasil teria? A nossa cultura é
muito rica, é muito forte. Kalunga é uma plantinha que tem as folhinhas bem
pequenininhas e que vive em todos os lugares. Até nos piores lugares que é o
lajedo. E ela resiste a essa seca toda, o ano todo, e ela não morre. Então, por
que Kalunga? Porque os Kalunga são pessoas resistentes. De resistência física
muito boa. Pessoas que sobreviveram. Seus antepassados sobreviveram há séculos
de escravidão. E nós o povo Kalunga resistimos também a toda esse sofrimento,
toda essa batalha, toda essa luta. Kalunga aqui no Brasil significa essa
plantinha. Ela não murcha, ela não seca, ela fica sempre bem verdinha.” Relato da historiadora e educadora
quilombola, Eleuza Pereira, do quilombo de Teresina de Goiás.
Fonte:
Governo de Goiás




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