A morte de
uma família em uma chácara na BR-070, em Ceilândia (DF), no dia 9 de junho é,
entre os crimes em que o nome de Lázaro Barbosa é citado como autor, o único
com indícios de que pode ter sido encomendado, diferentemente dos outros nos
quais ele aparece sozinho ou em dupla para roubar principalmente armas e
dinheiro. Os parentes destas vítimas estão apreensivos, pois uma das linhas de
investigação envolve a disputa por terras na região e o interesse de terceiros
pelas propriedades deles.
Por volta de
2h do dia 9 de junho, uma quarta-feira, Cláudio Vidal de Oliveira, de 48 anos,
sua esposa, Cleonice Marques de Andrade, de 43, e os filhos do casal, Gustavo,
de 21, e Carlos Eduardo, de 15, foram rendidos na chácara em que viviam e
trabalhavam com um viveiro, ás margens da BR-070, no setor conhecido como Incra
9. O pai e os filhos foram mortos na residência com golpes de faca e tiros,
enquanto Cleonice foi levada para um matagal aos fundos da propriedade. Seu
corpo foi encontrado três dias depois, por um grupo formado por parentes e
populares, próximo a um córrego a 5 km dali.
As
impressões digitais de Lázaro foram encontradas em uma porta de vidro e também
em uma faca deixada no local e a identificação foi rápida porque no mesmo dia
saiu o resultado preliminar de outra digital que foi encontrada em um roubo
seguido de estupro ocorrido no dia 27 de abril e investigado pela delegacia da
Mulher local.
Investigações
em andamento no 24º DP, de Ceilândia, mostram que Lázaro já vinha rondando a
chácara de Cláudio e Cleonice havia cerca de 20 dias. No dia 17 de maio, ele
teria invadido a chácara de um parente de Cláudio, encontrado o caseiro junto a
parentes e amigos dele, rendido todo mundo e permanecido no local das 19 horas
à meia-noite. Ele foi reconhecido por meio de fotografia e, segundo as vítimas,
teria dito que havia entrado na chácara errada, que tinha ordem de levar a
cabeça de alguém da região e perguntado se havia alguém ali parente de um policial
militar.
Esta chácara
roubada no dia 17 fica a menos de 1,5 quilômetro da propriedade de Cláudio e
tanto ele como o dono da chácara na qual Lázaro teria entrado por engano são
parentes de um policial militar, que inclusive foi chamado pela família para
auxiliar na busca por Cleonice ainda na madrugada do dia 9.
No dia 29 de
maio, Lázaro invadiu uma outra chácara, que fica entre as duas citadas
anteriormente e que é do mesmo dono da que foi roubada no dia 17, e o encontrou
com o caseiro e mais outra pessoa. Lázaro estava de bicicleta e junto com um
adolescente. Desta vez não roubou nada, perguntou se ali vendia queijo e se
havia mais chácaras do lado oposto ao da rodovia, pediu o número de telefone do
dono e foi embora.
Roubo?
Após fugir
da chácara de Cláudio, Lázaro invadiu e assaltou outras três propriedades em
Ceilândia na tentativa de escapar primeiro para Águas Lindas e depois
Cocalzinho. Segundo as vítimas do primeiro roubo após a chacina, ele estava com
a roupa do corpo, uma arma e uma mochila, procurando mais arma e dinheiro.
Até o
momento, a polícia não informou se foram levados dinheiro ou algo de valor da
família Vidal. Nos depoimentos de familiares, não consta a falta de nada
específico. Na primeira chácara que Lázaro invadiu na sequência, às 17h30 do
dia 9, a 3 km da casa dos Vidal e a uns 6 km de onde Cleonice foi encontrada,
se alimentou e ficou vasculhando os cômodos, mas saiu apenas com 4 reais e um
celular.
A forma como
Cleonice foi morta também chamou a atenção da polícia e assustou a família. Ela
teve uma orelha cortada ainda viva e foi executada com um tiro na altura da
nuca. A polícia investiga ainda se ela foi vítima de estupro. Quando os
primeiros parentes chegaram na casa encontraram Cláudio ainda com vida dizendo
que “eles” levaram a esposa. Com as investigações em sigilo, os policiais
envolvidos no caso dizem apenas que nenhuma possibilidade está descartada para
explicar o que aconteceu com Cleonice.
Em outro
assalto, no dia 10 de junho, ainda no Incra 9, Lázaro teria dito às vítimas que
não estava sozinho no crime, que a polícia está só atrás dele e que foram
outras pessoas que levaram Cleonice, não sabendo para onde eles foram. Enquanto
o corpo foi encontrado a sudeste da chácara, Lázaro seguiu em direção oeste na
sua fuga.
A polícia também
acredita que Lázaro teria matado a família após alguma das vítimas ter reagido.
Ele comentou isso nos assaltos que fez em seguida e na carta supostamente
escrita durante a fuga que foi encontrada em seu bolso após ser morto em
abordagem policial no dia 28.
“Apavorados”
Os parentes
de Cláudio estão preocupados porque um dos motivos investigados para a morte da
família tem a ver com o interesse de terceiros pelas terras que pertencem a
eles na região. Por isso, cobram da polícia que descubram se de fato Lázaro
estava sozinho ou não e se o crime foi encomendado.
Os delegados
envolvidos na investigação não comentam o caso. O advogado Fábio Alves, que
representa a família a pedido de parentes junto às investigações, disse que a
família está apavorada ainda pela possibilidade de morte encomendada e que
espera uma solução em breve por parte da polícia.
Ameaças
às vítimas revelavam detalhes
Apesar de na
carta encontrada no bolso de Lázaro Barbosa, supostamente de sua autoria, estar
apenas a confissão pela morte da família Vidal, em Ceilândia, ele teria
confessado outros homicídios a pelo menos três vítimas em um roubo cometido
após o cerco montado contra ele em Cocalzinho. Lázaro fazia muitas referências
aos crimes cometidos por ele para intimidar as vítimas. Num dos roubos, ele
afirmou ter matado seis pessoas, incluindo as três da família Vidal (a mulher
ele não admitia). “Ele falava isso para que a gente não reagisse, dizendo que
uma morte a mais ou a menos não ia fazer diferença”, relatou uma das vítimas.
Quando ele
fez uma família refém no dia 14 de junho e saiu com ela da chácara em que
estavam porque uma das vítimas havia chamado a polícia, Lázaro também mostrou
como fazia para se esconder da polícia, pedindo para que todos andassem pelo
córrego para não deixar rastros e para que se escondessem embaixo de uma pedra,
cobrindo-os com folhagem. Neste caso, a tentativa de acobertamento não deu
certo, mas mesmo assim, Lázaro exigiu que a família informasse aos policiais
que ele planejava sair do Estado. A mesma informação também foi compartilhada
em pelo menos outros dois roubos.
Em outro
assalto, também em Cocalzinho, Lázaro passou algumas horas com as vítimas,
entre elas o caseiro, a dona da chácara e familiares. Ele almoçou, tomou banho,
fez a barba, enquanto fazia as ameaças caso alguém reagisse. Nesta ocorrência,
um fato chamou a atenção das vítimas. Uma delas para acalmar Lázaro e evitar
uma tragédia maior, o abraçou duas vezes, sendo que na segunda ele teria
chorado e pedido para que a pessoa se afastasse “senão ele não aguentaria”.
Sem
demonstrar preocupação com a força-tarefa enquanto permanecia nas casas com as
vítimas durante a fuga, Lázaro demonstrava muito interesse nos aparelhos
celulares, pedindo para que fossem desbloqueados, perguntando se eram
rastreáveis e levando os carregadores juntos. Em uma das vezes deixou um
aparelho carregando em cima da geladeira enquanto almoçava. Noutra, perguntou à
dona se tinha o Facebook instalado. Ele usou um dos celulares roubados para
criar um perfil falso nesta rede social. A polícia desconfia que era para
acompanhar as notícias sobre a perseguição.
Pai de
Lázaro lamenta por carta e pede tranquilidade
Uma carta
que foi encontrada no dia 25 de junho, três dias antes da morte de Lázaro,
deixou o pai dele muito abalado. Em entrevista ao POPULAR no dia 7 de julho, 10
dias após a morte do filho, o aposentado Edenaldo Barbosa Magalhães, de 56
anos, fazia questão de comentar o conteúdo dela, cuja autoria até hoje não foi
confirmada pela polícia. “Mexeu numa ferida que doeu”, conta.
Na carta, Edenaldo
aparece como uma pessoa que vivia embriagado e que batia nos filhos, no caso
Lázaro e o irmão dele durante a infância dos mesmos. “É mentira, nunca fui
assim. Se eu tivesse errado, eu assumia, mas eu não fiz nada disso.”
Edenaldo
voltou para a casa em que vive com sua família, no distrito de Girassol, em
Cocalzinho de Goiás, após 15 dias ter deixado o local por causa do assédio da
polícia e da imprensa. Lázaro se escondeu boa parte dos 20 dias que ficou
foragido em uma mata próxima, mas nada indica que ele tenha procurado o pai
neste tempo, uma vez que, segundo o próprio, não tinham contato.
Mesmo sem
ter uma relação com o filho, que afirma ter visto pela última vez há uns seis
anos, Edenaldo diz que se sente um pouco culpado por tudo que aconteceu. “O que
eu peço agora é tranquilidade, que coloquem água em vez de gasolina. Eu sinto
aquilo que Deus faz eu sentir, humilhado, desprezado e peço desculpa e até
perdão, ao Brasil, às famílias que foram, sei lá a palavra correta para isso
(vítimas dos crimes de Lázaro), peço perdão por tudo.”
O pai de
Lázaro diz que esperava que ele fosse preso, “porque morto não paga a conta”,
mas que acredita que de alguma forma a Justiça será feita. “Todos têm uma alma
para prestar contas para Deus, meus erros é ele que vai fazer a Justiça.”
Polícia
tenta descobrir contatos feitos por Lázaro durante fuga
Para
descobrir a suposta rede de apoio que “patrocinou” a fuga de Lázaro, a polícia
busca identificar se teve pessoas com quem ele entrou em contato durante os 20
dias em que escapou do cerco policial. Ele tinha por hábito nos roubos às
chácaras sempre pedir por armas, dinheiro e celulares, levando sempre mais de
um aparelho. Em um deles, chegou a ligar para familiares da vítima, mas como
ninguém atendeu não se sabe se foi por acidente ou qual a intenção.
No dia em
que foi localizado pela última vez pela polícia, Lázaro foi até a casa da ex em
Águas Lindas e usou o celular dela para mandar mensagens para a atual mulher.
Ela nega que ele tenha falado com outras pessoas.
Tanto a ex
como a atual mulher de Lázaro prestaram depoimento na última quinta-feira para
a delegada Rafaela Azzi. A polícia acredita que elas vinham conversando com
Lázaro durante a fuga. A atual mulher foi questionada se alguém vinha
repassando dinheiro para o marido.
Procurada
pela reportagem, a delegada disse que não poderia se pronunciar sobre a
investigação, que segue em sigilo. Em Brasília, não estão investigando rede de
apoio.
Fonte: O Popular

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