Além dos
advogados, há um terceiro investigado, que é veterinário e atuava com a dupla.
Ele também foi indiciado. Os nomes deles não foram divulgados. Por isso, a
reportagem não conseguiu localizá-los para pedir um posicionamento sobre o
caso.
O trio foi
indiciado por associação criminosa, falsidade ideológica (por duas vezes) e
estelionato contra Ciriaco Francisco dos Santos, de 79 anos.
A família do
idoso informou a reportagem que deve se posicionar sobre o caso na próxima
semana.
A delegada
responsável pela investigação, Bárbara Buttini, apurou que, além de Ciriaco,
outro idoso também pode ter sido vítima do trio anteriormente, mas como não era
o intuito desta investigação, ela não pode os indiciar por isso. Segundo ela,
essa primeira pessoa prejudicada tinha 77 anos e faleceu meses depois de
assinar alguns documentos para os investigados. Ambos os casos envolvem terras
na Chapada dos Veadeiros.
“É uma
associação criminosa formada por dois advogados e um indivíduo. É a segunda vez
que eles aplicam golpes em idosos [...]. Faziam as vítimas assinarem
procurações em cartórios de diferentes estados, procurações ideologicamente
falsas, passando as terras para eles, que entravam na Justiça querendo a terra,
e a vítima sem saber de nada”, resumiu.
Primeiro
caso
Para
entender o caso, é necessário voltar alguns anos no tempo. Segundo as
investigações, o trio começou, em 2014, tentando enganar um idoso de 77 anos
para conseguir a Fazenda Água Clara, em São João D’Aliança.
Consta no
inquérito da Polícia Civil que os advogados abordaram essa primeira vítima e a
fizeram assinar uma confissão de dívida de R$ 3,6 milhões ao veterinário, sem
esclarecimento nos documentos do que se tratava a dívida.
As
investigações apontaram que, dois dias depois, essa vítima assinou um documento
entregando a Fazenda Água Clara como pagamento e uma procuração a um dos
advogados – dois documentos assinados em cartórios de cidades a mais de oito
horas de viagem uma da outra, o que faz com a delegada desconfiasse da
veracidade dos documentos.
Dois meses
depois disso, a vítima morreu. Em 2017, três anos após a morte do idoso de 77
anos, os advogados fizeram uma ratificação da escritura que indicava a doação
da fazenda para o veterinário. Como o idoso já havia morrido há anos, a
delegada também desconfia da autenticidade deste documento.
Segundo
caso
No mesmo
ano, os advogados procuraram Ciriaco e sua família dizendo que haviam comprado
a Fazenda Água Clara e que precisavam delimitar a área. Na ocasião, de acordo
com a delegada, descobriram que a propriedade mencionada estava dentro das
terras disputadas desde 2003 entre Ciriaco e outra pessoa, que já morreu, mas o
processo continua.
Em 2003,
Ciriaco entrou com uma ação pedindo a reintegração de posse de uma área,
segundo a delegada, avaliada em R$ 30 milhões e que faz parte da Fazenda
Buriti, que tem um valor estimado de R$ 100 milhões.
Há uma
decisão em favor da família da outra parte envolvida, dada em fevereiro de
2020, que não reconhece as terras como de Ciriaco, e outra, de novembro do
mesmo ano, que determinou a reintegração de posse a Ciriaco. Cabe recurso da
decisão.
No entanto, a
Polícia Civil descobriu que, em meio a esse processo, os advogados indiciados
abordaram Ciriaco e o fizeram assinar uma procuração dando poderes a um deles
para atuar no processo. Segundo a delegada, o idoso foi enganado e pensava que
estava ajudando o então advogado que o representava no processo. A procuração
foi revogada cinco dias depois.
Outras
partes se envolveram reivindicando as terras para si, se apresentando como
compradoras da fazenda em disputa. Segundo a delegada, foram casos articulados
pelos indiciados para tumultuar o processo.
Buttini
apurou ainda que um dos advogados indiciado conseguiu enganar Ciriaco novamente
com outra procuração, sem o idoso saber que estava retirando o advogado que de
fato o representava do processo.
“Eles
estavam tentando se infiltrar no processo. Se conseguissem extinguir o
processo, conseguiriam aquela área pleiteada que não conseguiram no processo de
2014 [referente à primeira vítima]. Estavam negociando sem anuência do Ciriaco,
porque ele nunca quis negociar a terra, só queria a terra de volta”, explicou.
A defesa da
família que briga com Ciriaco por parte das terras da Fazenda Buriti, notando
as várias manobras jurídicas incomuns no processo, alertou o juiz do caso que
Ciriaco poderia estar sendo vítima de algum golpe. O magistrado, então,
desconfiou da situação e acionou o Ministério Público do Estado de Goiás
(MP-GO) para que pedisse uma investigação.
Por meio de
nota, o MP explicou que “não é parte no processo que tramita na comarca de Alto
Paraíso, que se encontra em fase de execução, pelo fato de a ação ser de
natureza privada e não pública”.
“No intuito
de apurar possível violação aos direitos dos idosos, a promotora de Justiça
Úrsula Catarina Fernandes da Silva Pinto determinou o registro dos documentos
recebidos como notícia de fato criminal e sua remessa imediata à delegacia de
polícia, para investigações”, informa o MP.
Assim, a
delegada Bárbara Buttini assumiu a investigação. Se os advogados e o
veterinário indiciados forem condenados, eles podem ficar preso por até 23
anos.
Segundo a
delegada, a prisão dos indiciados não foi pedida com intuito de acelerar a
resolução do processo de disputa de terras que já se estende por quase 20 anos.
Fonte: G1

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