O suicídio e
a morte já foram abordados em filmes, ritos, religiões e na música. Um exemplo
é a canção de Raul Seixas em que a morte nos remete a difícil questão de
refletir sobre a vida e a nossa convivência em sociedade.
Muitos tabus
cercam o suicídio e, geralmente, não damos a merecida atenção ao tema, que,
muitas vezes, é visto como uma “fragilidade pessoal” ou uma “fraqueza”.
O relatório
da OMS (Organização Mundial da Saúde) aponta que aproximadamente 800 mil
pessoas dão fim a sua vida a cada ano no mundo, sendo o Brasil o oitavo país
nas américas em números de suicídio.
Para a
coordenadora do Centro Latino-Americano de Estudos de Violência e Saúde Jorge
Careli (CLAVES) Cecília Minayo, o suicídio caracteriza-se pelo ato deliberado
de infligir a própria morte, incluindo fatores biológicos, psicológicos,
médicos e sociais.
Já a
pesquisadora do campo Violência e Saúde Liana Pinto lembra que todo suicídio
tem um componente de escolha do sujeito diante de circunstâncias sociais,
psicológicas, ambientais e médicas muito dolorosas.
Daí a
importância de contextualizar para chegar ao caso concreto. Há um consenso
entre grande parte dos pesquisadores do campo da saúde de que é possível prevenir o ato de dar
fim da própria vida. Um caminho possível é conhecer um pouco contextos sociais que
podem intensificar a falta de desejo por viver.
O processo
de construção que leva tentativas de concretizar a própria morte, percorre
caminhos distintos, de acordo com cada pessoa e perpassa por vivências
singulares, minimamente associadas a conflitos e devaneios emocionais difíceis
de serem suportados.
No entanto,
não se pode desconsiderar os aspectos sociais que rondam o desejo pela própria
morte.
Atualmente o
suicídio é um grande problema de saúde pública que percorre campos polêmicos e
envolve necessariamente a reflexão de realidades sociais.
Dentre os
muitos motivos que podem levar uma pessoa a interromper sua própria vida,
faz-se necessário destacar a
depressão como um aspecto importante.
Aliás, esse
é um estágio de alerta para todos que convivem com pessoas acometidas por esse
transtorno, que pode ser correlacionado a tentativas de suicídio. Determinados
grupos são mais afetados por situações específicas que podem levar a
transtornos mentais graves como a depressão.
Mas, afinal,
o que efetivamente levaria uma pessoa a tirar sua própria vida? Essa pergunta
certamente não terá uma resposta única e nem fácil. Isso em função da
multicausalidade presente em situações de tentativas de suicídio.
Algumas
pesquisas já apontam para respostas que ajudam a compreender um pouco mais essa
situação.
Na população
trans, destaca-se a vivência da transfobia e depressão como fatores relevantes
a serem considerados, conforme os debates do Seminário Suicídio da População
Trans: limites entre vida e morte.
Fatores
cotidianos podem trazer experiências insuportáveis e dolorosas, como o dia a
dia dentro de casa, a convivência com parceiros sexuais, o não acesso ao
mercado de trabalho, o processo de discriminação que são acometidas,
caracterizando-se em violência física e estrutural.
Dentre
outros grupos, em que o suicídio também se configura como grave questão de
saúde, estão as populações de homens idosos e pessoas com HIV.
Temos
urgência em desconstruir nossa insensibilidade e abandono das dores de pessoas
que cometem tentativas de suicídio – por vezes minimizadas como “besteiras”,
“fraqueza”, ou “alguém que quer aparecer” – quando na verdade a pessoa quer
sumir.
É preciso desconstruir a crença popular de que
“quem quer se matar de verdade não avisa”.
As
experiências no campo da saúde mental mostram exatamente o contrário,
normalmente uma tentativa de suicídio é anunciada, muitas vezes, antes de
ocorrer. Não é muito difícil observar pessoas que estão passando por situações
insuportáveis.
Necessitamos
solicitar ajuda mesmo que não estejamos pensando em nos matar. Existem espaços
que podem auxiliar em momentos difíceis como o Centro de Valorização da Vida.
A
infelicidade, a depressão, o bloqueio das potencialidades podem ser
considerados, segundo Roosevelt Cassorla, professor da Unicamp, suicídios
parciais ou microssuicídio.
Finalizo com
as palavras do grande psicólogo existencial e “o papa” da psicologia hospitalar
brasileira Angerami Camom no texto A Vida Como Farsa:
“A vida não
tolera farsas. Podemos enganar todos, mas nunca a nós mesmos. A vida quando se
torna uma farsa se torna um fardo insuportável. Não deixe sua vida se
transformar em uma grande farsa. Recolha tua dor e sorria apenas quando o
coração estiver em festa. Não faça da tua vida uma farsa”.
Texto: Salvador
Correa (Ele é psicólogo, especialista em saúde coletiva, mestre em Saúde
Pública e ativista do movimento de Aids. Atualmente coordena a Associação
Brasileira Interdisciplinar de AIDS e atua no acolhimento de pessoas recém
diagnosticadas)

Nenhum comentário:
Postar um comentário